A história de uma mulher que roubou duas arepas em Medellín pra dar a um senhor*

16 de outubro, dia Mundial da Alimentação. E hoje lembrei de um fato que passei no inicio do ano em uma das minhas viagens à Colômbia

Sou a mulher, e isso aconteceu mesmo. Imagina você acordar tarde numa manhã de domingo e ter perdido o café da manhã do hostel e não ter jantado bem. E tem uma lista de pontos turísticos para percorrer e precisa sair logo para não perder tempo.

Era uma manhã de domingo em Medellin, na Colômbia, janeiro chuvoso e nada de primavera, fazia frio e muita chuva, fraca, mas sempre chovendo, nada podia ser pior que estar com fome no domingo chuvoso e muito gripada, sabendo que não podia mais perder o restante da manhã e tinha que aproveitar o restante do dia daquele domingo frio e chuvoso.

Me arrumei e sai logo para ir atrás de algum lugar para comer, mas que lugar? Gripe, frio, chuva, fome, domingo de manhã e tudo que era restaurante fechado. Eu me pergunte, “Que pasa?” Uma cidade turística nunca região turística (poblado) e não tem um lugar pra comer?

Continuei descendo ladeira abaixo rumo estação Poblado, onde eu pretendia comer algo no caminho e seguir pros meus tour de domingo.

No meio caminho, vejo uma tenda aberta com muitas arepas e empanas brilhando numa fritura bem oleosa. Gente, era tanta fome, mas tanta fome, que minha barriga reclamava de chegar a doer.

Quando estava olhando a tabela de preços e opções na parede acima e se comprava a empanada ou a arepa. Ainda olhando pra cima, ouço alguém falar pra atendente: – moça me dá uma empanada, estou com muita fome. E sem jeito a mulher responde: – não posso, se não vou ter que pagar.

Ouvindo a cena, ouvindo, pois ainda não tinha baixado a cabeça pra olhar pra quem estava pedindo comida. Só disse, em português: – também estou com fome, passando a mão na barriga, ninguém entendeu. E disse: Estoy con hambre.

Quando baixo a cabeça, vi a moça com muitas empanas e arepas separando as prontas e me deu mais fome, e o senhor lá ainda pedindo. Por favor, estoy con hambre.

Olhei pro lado, olhei pro outro, e a rua deserta só eu, a mulher e o senhor. Naquele momento passaram várias coisas pela minha “barriga”, ou melhor, pela minha cabeça. Se eu não tivesse dinheiro, com certeza eu ia roubar aquela empanada e arepa e sair correndo pra matar minha fome. Pois eu tinha muita fome, mas não era uma fome de dias, era apenas uma fome por não ter comido direito na noite anterior e não ter tomado café nessa manhã.

Pensei: Estou ficando doida? Porque estou pensando nisso? Mas continuei pensando, se eu roubo duas arepas das que estão aqui, uma pra mim, e outra pro senhor, que tá com fome, ela nem vai perceber.

Eu não sei o que passava pela minha cabeça, cada vez mais vinha formas e estratégias de querer roubar, ou melhor furtar, aqueles salgados e sair correndo. Fiquei rindo sozinha e fui escolher a minha arepa.

Entre olhar os preços da tabela e olhar as arepas, empadas que ela estava separando, olho direito pro lado e vejo o senhor todo mal vestido, sujo e percebo que não era um senhor simplesmente pedindo comida. Era um mendigo com muita fome, mas não era uma de noite anterior ou de café, era uma fome de anos, meses e dias sem comer direito ou sei lá quando comeu.

Depois que olhei pra ele, percebi que minha fome não era nada, e que se eu estava com fome naquele momento, não podia roubar ou pensar em roubar, pois aquele senhor, mesmo com fome de dias, estava lá pedindo comida, não estava roubando.

Logo depois comecei a rir sozinha feito idiota dos meus pensamentos idiotas, a mulher olhou pra mim e começou a rir junto sem saber o porquê e o senhor continuou olhando as arepas e empanadas empilhadas com um desejo de matar a fome.

Olhei pra mulher e disse: -faz duas arepas, uma pra ele, e outra pra mim. Eu pago nosso café. Ela olhou  pra mim e disse : – si. o senhor olhou pra mim e disse gracias 10x e gracias dios 20x pela arepa. Disse: – por nada, bom provecho. Primeiro ela fez a dele e entregou e depois fez a  minha.

Paguei a arepa e segui rumo a estação poplado. Quando olhei pra trás e vi aquele senhor mais uma vez agradecendo a Deus levantando a mão e olhando pro céu a cada mordida que dava na arepa, pensei: o que é a fome? triste e muitos não tem o que comer.

Sai comendo a minha arepa, mas com a cena, não sei o que meu deu, naquele momento perdi a fome, mas comi toda a arepa mesmo sem sentir mais fome, percebi que fome mesmo, eu nunca senti e que muitos não tem o que comer como aquele senhor.

No fim, eu não roubei a arepa, mas se com uma fome pequena eu tive aqueles pensamentos, imagino alguém com fome de verdade. O que faz pra se alimentar; o que faz pra alimentar um filho? Pedir? Roubar? Furtar? É a fome gente, a gente acha que já teve, mas só sabe quem vive dias sem comer.

*história baseada em experiência reais de viagem

Vamos oferecer um prato de comida a quem tem fome.

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